Mayombe

Nesta obra, originalmente publicada em 1980, Mayombe foi escrito durante a participação do escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) na guerra de libertação de Angola na década de 70. Recompõe o cotidiano dos guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) em luta contra as tropas portuguesas. O romance, inovador, aborda as ações, os sentimentos e as reflexões do grupo, e as contradições e os conflitos que permeavam as relações daqueles que buscavam construir uma nova Angola, livre da colonização.

Foco narrativo

A obra é organizada em seis capítulos nos quais há variação do foco narrativo – um narrador onisciente e onipresente se intercala com as personagens, guerrilheiros do MPLA, no papel de narrador da história. Com isso, Pepetala demonstra que nem mesmo a revolução se organiza como um conjunto, sendo enxergada de forma diferente e conflitante pelos seus próprios membros. Cada um desses observadores-participantes, com origem, ideologia, visão e propostas próprias, possuem também ideais distintos que os impedem de lutar pela mesma unidade libertadora.

Tempo

“O Mayombe começa com um comunicado de guerra. Eu escrevi o comunicado e… o comunicado pareceu-me muito frio, coisa para jornalista, e eu continuei o comunicado de guerra para mim, assim nasceu o livro”, escreve o autor numa obra híbrida entre o romance e a reportagem.

Mayombe, nome de uma região da África, é uma narrativa em tempo cronológico que analisa profundamente a organização dos combatentes do MPLA, lançando luz às dúvidas, que também eram as do autor, sobre as contradições, medos e convicções que impulsionavam os guerrilheiros em busca de liberdade no interior da densa floresta tropical. Eles confrontam-se não só com as tropas colonizadoras portuguesas, mas também com as diferenças culturais e sociais que procuram superar em direção a uma Angola unificada e livre.

Enredo

O livro é dividido em seis capítulos: A Missão; A Base; Ondina; A Surucucu; a Amoreira e o Epílogo. Os personagens são nomeados como alegoria de guerra conforme os objetivos do MPLA. Assim, temos o personagem Sem Medo (o comandante), Teoria (o professor), Verdade e Lutamos (destribalizados) e Mundo Novo, representante da elite africana que vai estudar fora de seu país, entre outros.

Ondina, a personagem feminina, é a mulher que instaura as transformações em alguns guerrilheiros do Mayombe. Por exemplo, o Comissário Político, seu noivo, é obrigado a amadurecer diante da traição e do rompimento da relação com ela. Sem Medo é impelido a refletir sobre o amor e a sacrificar seu desejo por ela.

Interessante notar que Ondina é a personagem que não tem voz na narrativa de Pepetela, o que reflete a crítica para a desigualdade de gênero na luta instaurada em Angola por libertação e justiça.

Por fim, a floresta – personagem – gesta um novo homem para um novo momento histórico em Angola. Pepetela, por meio da apropriação do espaço do Mayombe, procura, simbolicamente, percorrer a história angolana por meio do território invadido e ocupado pelos colonos, seja no que diz respeito à terra ou à identidade do povo de Angola.

Análise

A obra é uma reflexão, envolta pelos ideais socialistas, sobre a dura realidade da sociedade angolana, sobre as perspectivas do movimento de libertação e da população local em relação aos princípios conflitantes do MPLA.

Cada personagens luta a seu modo por seus ideais de libertação. Em meio a isso, vimos uma Angola despedaçada e sem unidade. O livro procura retratar esse desfacelamento e critica as lutas de grupos que não se unem por um ideal comum.

A estrutura narrativa polifônica (várias vozes), que retrata os acontecimentos sob o ponto de vista de várias personagens em primeira pessoa, revela o profundo respeito a cada homem na sua individualidade e o desejo do autor de transformar os agentes da revolução em sujeitos da luta.

Durante toda a narrativa, ocorre um mesmo registro linguístico, a despeito do abismo existente entre as classes sociais das personagens e as suas origens culturais, o que reforça a ideia de propor a igualdade entre as pessoas. Além disso, há a tentativa de criar um ideal nacionalista que une os povos distintos e a MPLA em oposição ao colonialismo.

Conexões

Ao retratar a luta de tribos em busca da libertação de seu país, Mayombe pode ser comparada ao romance indianista Iracema, de José de Alencar. Ambas apresentam conflitos entre tribos e a tentativa de se isolar do colonialismo português.

Sagarana

Elementos estruturais e resumos
Os narradores de “Sagarana” têm o estilo marcante criado por Guimarães Rosa, cuja principal característica é a oralidade. No entanto, esse traço ainda não está tão acentuado como em obras posteriores, como “Grande Sertão: Veredas” e “Primeiras Estórias”, entre outras. Considerando que a oralidade acentuada é um dos principais obstáculos para a leitura de Guimarães Rosa, o livro “Sagarana” é uma excelente opção para iniciar-se na obra do autor.

Em relação ao foco narrativo, com exceção dos contos “Minha Gente” e “São Marcos” – que são narrados em primeira pessoa –, os demais possuem narradores em terceira pessoa. Quanto ao tempo e ao espaço de “Sagarana”, pouco há o que ser dito. Sobre o primeiro elemento, vale destacar a linearidade da narrativa, que se desenvolve na maior parte sob o tempo psicológico dos personagens.

O espaço é quase sempre Minas Gerais. Mais especificamente, o interior do estado. Vale uma atenção maior para o nome dos povoados e vilarejos dos contos. Os estados de Goiás e do Rio de Janeiro são mencionados no livro, mas têm pouca relevância na narrativa.

“O burrinho pedrês”
Enredo: Sete-de-Ouros é um burrinho decrépito que já fora bom e útil para seus vários donos. Esquecido na fazenda do Major Saulo, tem o azar de ser avistado numa travessia pelo dono da fazenda, que o escala para ajudar no transporte do gado. Na travessia do Córrego da Fome, todos os cavalos e vaqueiros morrem, exceto dois: Francolim e Badu; este montado e aquele agarrado ao rabo do Burrinho Sete-de-Ouros.
Principais personagens: Sete-de- Ouros (burrinho pedrês), Major Saulo, Francolim e Badu.

“A volta do marido pródigo”
Enredo: Lalino é um típico malandro que não aprecia o trabalho, apenas a boa vida. Abandona o serviço na estrada de ferro e vai para o Rio de Janeiro, largando sua mulher, Maria Rita, a Ritinha, na região. No retorno, a encontra casada com o espanhol Ramiro. Torna-se cabo eleitoral do Major Anacleto, que, graças a ele, ganha a eleição. Laio, como também é conhecido, reconcilia-se com Maria Rita no fim do conto.
Principais personagens: Lalino Salathiel, Maria Rita, Ramiro e Major Anacleto.

“Sarapalha”
Enredo: a história de dois primos, Ribeiro e Argemiro, contagiados pela malária que se espalhou no vau de Sarapalha. Os dois estão solitários na região, já que parte da população morrera e os demais fugiram, entre os quais a mulher de Ribeiro, Luísa. Argemiro, percebendo a iminência da morte e desejando ter a consciência tranqüila, confessa o interesse pela esposa do primo. Ribeiro reage à confissão de forma agressiva e expulsa Argemiro de suas terras, sem nenhuma complacência.
Principais personagens: Primo Ribeiro e Primo Argemiro.

“Duelo”
Enredo: Turíbio flagra sua mulher, Silvana, com o ex-militar Cassiano Gomes. Ao procurar vingar sua honra, confunde-se e acaba matando o irmão de Cassiano Gomes. Turíbio foge para o sertão e é perseguido pelo ex-militar. Nessa disputa, os dois alternam os papéis de caça e de caçador. Cassiano adoece e, antes de morrer, ajuda um capiau chamado Vinte-e-um, que passava por dificuldades financeiras. Turíbio volta para casa e é surpreendido por Vinte-e-um, que o executa para vingar seu benfeitor.
Principais personagens: Turíbio Todo, Cassiano Gomes, Silvana e Vinte-e-um.

“Minha gente”
Enredo: Emílio visita a fazenda de seu tio, candidato às eleições, e apaixona-se por sua prima Maria Irma, mas não é correspondido. Ela se interessa por Ramiro, noivo de outra moça. Emílio finge-se enamorado de outra mulher. O plano falha, mas a prima apresenta-lhe sua futura esposa, Armanda. Maria Irma casa-se com Ramiro Gouveia.
Principais personagens: Emílio (narrador), Maria Irma, Ramiro Gouveia e Armanda.

“São Marcos”
Enredo: José, narrador-personagem, é supersticioso, mas mesmo assim zomba dos feiticeiros do Calango-Frito, em especial de João Mangolô. Izé, como é conhecido o protagonista, recita por zombaria a oração de São Marcos para Aurísio Manquitola e é duramente repreendido por banalizar uma prece tão poderosa.

Certo dia, caminhando no mato, Izé fica subitamente cego e passa a se orientar por cheiros e ruídos. Perdido e desesperado, recita a oração de São Marcos. Guiando-se pela audição e pelo olfato, descobre o caminho certo: a cafua de João Mangolô. Lá, irado, tenta estrangular o feiticeiro e, ao retomar a visão, percebe que o negro havia colocado uma venda nos olhos de um retrato seu para vingar-se das constantes zombarias.
Principais personagens: José, ou Izé (narrador), Aurísio Manquitola e João Mangolô.

“Corpo fechado”
Enredo: Manuel Fulô, falastrão que se faz de valente, é dono de uma mula cobiçada pelo feiticeiro Antonico das Pedras-Águas. Este, por sua vez, tem uma sela cobiçada por Manuel. Enquanto o protagonista se gaba de pretensas valentias, o verdadeiro valentão Targino aparece e anuncia que dormirá com sua noiva. Desesperado, Manuel recebe a visita do feiticeiro, que promete fechar-lhe o corpo em troca da mula. Após o trato, há o duelo entre os dois personagens; o feitiço parece funcionar e Manuel vence a porfia.
Principais personagens: Manuel Fulô, feiticeiro Antonico das PedrasÁguas e Targino.

“Conversa de bois”
Enredo: conta a viagem de um carro de bois que leva uma carga de rapadura e um defunto. Vai à frente Tiãozinho, o guia, chorando a morte do pai, ali transportado, e Didico. Tiãozinho, que se tornara dependente de Soronho, angustiava- se com este por dois motivos: ele maltratava os bois e havia desfrutado os amores de sua mãe durante a doença do pai.
Paralelamente, o boi Brilhante conta aos outros a história do boi Rodapião, que morrera por ter aprendido a pensar como os homens. Há uma indignação entre os animais em relação aos maus-tratos que os humanos lhes infligem. Agenor, para exibir a Tiãozinho seus talentos como carreiro, obriga, de forma cruel, os bois a superar a ladeira onde a carroça de João Bala havia tombado. Superado o obstáculo, os bois aproveitam-se do cochilo de Agenor e puxam bruscamente a carroça, matando seu algoz.
Principais personagens: Tiãozinho, Didico, Agenor, Soronho e o boi Brilhante.

“A hora e a vez de Augusto Matraga”
Enredo: Augusto Estêves manda e desmanda no pequeno povoado em que vive. Pródigo, com a morte do pai perde todos os seus bens. Certo dia, Quim Recadeiro dá-lhe dois recados que alterarão sua vida: perdera os capangas para seu inimigo, o Major Consilva, e a mulher e a filha, que fugiram com Ovídio Moura.
Augusto Estêves vai sozinho à propriedade do major para tomar satisfação com seus ex-capangas. O Major Consilva ordena que Nhô Augusto seja marcado a ferro e depois morto. Ele é espancado à exaustão; depois os homens esquentam o ferro usado para marcar o gado do major e queimam o seu glúteo. Augusto, desesperado, salta de um despenhadeiro.
Quase morto, o protagonista é encontrado por um casal de pretos, que cuida dele e chama um padre para seu alívio espiritual. Nhô Augusto decide que sua vida de facínora chegara ao fim. Recuperado, foge com os pretos para a única propriedade que lhe restara, no Tombador. Trabalha de sol a sol para os habitantes e para o casal que o salvara, em retribuição a tudo que fizeram por ele. Leva uma vida de privações e árduo trabalho, com a finalidade de purgar seus pecados e, assim, ir para o céu.
Um dia, aparece na cidade o bando de Joãozinho Bem-Bem, o mais temido jagunço do sertão. Nhô Augusto e o famigerado jagunço tornam-se amigos à primeira vista e, depois da breve estada, despedem-se com pesar. Com o tempo, Nhô Augusto resolve sair do Tombador, pressentindo a chegada da “sua hora e vez”. Encontra-se por acaso com Joãozinho Bem-Bem, que está prestes a executar uma família, como forma de vingança. Nhô Augusto pede a Joãozinho Bem-Bem que não cumpra a execução. O jagunço encara essa atitude de Nhô Augusto como uma afronta e os dois travam o duelo final, no qual ambos morrem.

Sobre Guimarães Rosa
João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908 na cidade de Cordisburgo, Minas Gerais. Autodidata, começou ainda criança a estudar diversos idiomas, iniciando pelo francês, quando nem completara 7 anos. Em 1925 matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, formando-se em 1930. No mesmo ano, casou-se com Lígia Cabral Penna, com quem teve duas filhas.

Passou a exercer a profissão de médico no interior de Minas Gerais, onde teve um primeiro encontro com os elementos e a realidade do sertão. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932 atuou como médico voluntário. Mais tarde foi aprovado no concurso e ingressou na Força Pública. Em 1934 foi aprovado em um concurso para o Itamaraty e exerceu diversas funções diplomáticas no exterior, tais como a de cônsul em Hamburgo, na Alemanha – onde conheceu Aracy Moebius de Carvalho (Ara), sua segunda mulher. De volta ao Brasil, em 1951, assumiu outros cargos no Itamaraty, sendo promovido em 1958 a ministro de primeira classe, cargo correspondente a embaixador.

Ao lado de sua atividade profissional, como médico ou como diplomata, Guimarães Rosa nunca deixou de escrever. Tinha também paixão por aprender outros idiomas. Seus conhecimentos nesse campo impressionavam pela amplitude: falava fluentemente alemão, francês, inglês, espanhol, italiano e esperanto, além de um pouco de russo. Lia em sueco, holandês, latim e grego. Havia estudado também a gramática das seguintes línguas: húngaro, árabe, sânscrito, lituano, polonês, tupi, hebraico, japonês, tcheco, finlandês e dinamarquês.

A estreia literária de Guimarães Rosa se deu em 1929, quando a revista “O Cruzeiro” publicou alguns contos seus, vencedores de um concurso literário da edição. Seu primeiro livro, a coletânea de contos Sagarana, foi publicado em 1946 e chamou muita atenção pelas inovações técnicas e riqueza de simbologias.

O escritor fez, em maio de 1952, um percurso de 240 quilômetros no sertão mineiro, durante dez dias, conduzindo uma boiada. Na viagem, anotou expressões, casos, histórias, procurando apreender de forma mais profunda aquele universo com o qual tinha contato desde a infância. Seu intuito era recriar literariamente o sertão, dando voz a seus personagens. Dessa viagem resultou seu único romance, “Grande Sertão: Veredas”, publicado em 1956 e tido como um dos mais importantes textos da literatura brasileira de todos os tempos.

Em 1961, Guimarães Rosa recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Candidatou-se à Academia Brasileira de Letras, pela segunda vez, em 1963 e foi eleito por unanimidade. Mas não foi empossado imediatamente, porque adiou a cerimônia enquanto pôde. Dizia ter medo de morrer no dia do evento. Só tomou posse em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, em 19 de novembro, morreu subitamente em seu apartamento no Rio de Janeiro, de infarto.

Suas principais obras são: “Sagarana” (1946), “Grande Sertão: Veredas” (1956), “Corpo de Baile” (1956; atualmente é publicada em três volumes: “Manuelzão e Miguilim”, “No Urubuquaquá, no Pinhém” e “Noites do Sertão”) e “Primeiras Estórias” (1962).

Minha vida de menina

“Uma vez uma porção de meninas fizeram a primeira comunhão como vocês vão fazer hoje. Receberam a sua hóstia e foram contritas para os seus lugares; nesse momento uma delas caiu para trás e morreu. O padre disse à mãe da menina: ‘Foi Deus que a levou para a sua glória!’. Todas as outras invejavam a companheira na graça de Deus. Nisto, o que foi que elas viram? O capeta arrastando por detrás do altar o corpo da desgraçadinha. Sabem por quê? Porque a menina escondeu um pecado no confessionário.”

O DIÁRIO DE UMA ADOLESCENTE

Cid Ottoni Bylaardt, professor do Pré-Vestibular Pitágoras

O livro Minha vida de menina, de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, tem uma gênese peculiar. Ele teria sido composto de várias passagens do diário de uma adolescente escrito entre os anos de 1893 e 1895, quando ela tinha de 13 a 15 anos de idade. Depois de muitas décadas guardados e esquecidos, os escritos foram reunidos e selecionados pela autora e publicados em 1942, para mostrar “às meninas de hoje a diferença entre a vida atual e a existência simples que levávamos naquela época”.
Há quem possa duvidar da autenticidade dos manuscritos. Não é de todo impossível que o diário tenha sido escrito muitos anos depois da época retratada, ou ainda não é inadmissível que tenha sido dado algum trato literário de proposital despojamento aos escritos da menina, pelas mãos de escritores modernistas mineiros. Unicamente a revelação pública dos manuscritos poderia deslindar o mistério.

AS PALAVRAS E AS COISAS

Seja como for, é inquestionável a qualidade literária dos escritos. Sua prosa coloquial possui o tom da franqueza, a linguagem é desataviada, próxima do concreto do dia-a-dia da autora, e de seu modo de vida, ligado às coisas práticas, aos prazeres sensíveis e percepções imediatas. Escrever é para a garota ser fiel à realidade dos acontecimentos, e a ausência deles é um estorvo para a realização lingüística, conforme ela observa em determinada passagem: “Eu estava com a pena na mão pensando o que havia de escrever, pois há dias não acontece nada”. A hesitação é quebrada por um providencial enterro que passa à porta de sua casa, e lhe proporciona o ingrediente necessário para o exercício da redação: “Fiquei contente porque achei um assunto”.
Helena acha que o pai tinha razão quando aconselhou-a a escrever diariamente o que lhe acontecia, porque há casos que, de tão engraçados, tinham mesmo é que ficar registrados no papel, pois a memória um dia os esqueceria. É o caso do maior bebedor da cidade, “nosso pobre professor Seu Leivas que em todas as festas acaba sempre bicudo”, que no aniversário de Siá Aninha, encheu as bochechas de cerveja e esguichou-a pelas narinas sobre a comidaria que estava em cima da mesa.
É evidente a necessidade de alimentar as narrativas e reflexões com produtos reais. Até o inverossímil cria contornos de realidade, como o caso do ladrão que não se podia prender porque ele se metamorfoseava em cadeira, ou em vassoura, ou, no mato, em cupim. O absurdo da situação poderia até passar por verídico se não contradissesse a lógica da menina: se se prender o cupim na cadeia, o ladrão não estará lá ao reverter à forma humana?
Com as histórias que ouve, a expectativa de Helena não é muito diferente. Há que ter lógica e realidade. Grande contadeira de histórias é a negra Reginalda. Certa noite, ela começou a contar histórias, e os ouvintes pediam sempre mais, até que ela esgotou seu estoque de casos, e teve que inventar alguma coisa. Helena e o primo Leontino perceberam na hora que o caso era inventado e se retiraram decepcionados. Suas histórias preferidas são as do tempo antigo, principalmente as dos casamentos de suas tias. Acha repetitivas e sem graça as histórias do pai.

Até o inverossímil cria contornos de realidade, como o caso do ladrão que não se podia prender porque ele se metamorfoseava em cadeira, ou em vassoura, ou, no mato, em cupim.

A arte narrativa é entendida como reprodução do mundo e seus valores. Ou representação, como no teatro dos fantoches, cujo encanto reside no fato de parecerem com gente.
O diário não serve apenas para se registrarem os acontecimentos quando eles acontecem. Há as digressões, como a lembrança do ano da fome, quando Helena era muito menina. A auto-confiança da diarista é tanta que ela afirma que certamente não teriam passado tantas dificuldades se ela fosse na época “maior ou mais esperta como hoje”.
Para Helena, os mecanismos do mundo têm de ser bem explicados para que eles possam ter valor. É o que ocorre, por exemplo, com a superstição, de que a Diamantina daquela época era plena. Helena sofria desde menina com a superstição do povo, e na adolescência duvida dela. Treze pessoas na mesa e espelho quebrado dão azar, pentear cabelo de noite manda a mãe para o inferno, varrer a casa de noite faz a vida desandar, e muitas outras crenças deixam Helena incrédula. Uma superstição em que ela acredita, porque tem lógica, e funciona por estar ligada à realidade, é a de que jogar sal no fogo faz com que uma visita indesejada vá embora. Como as visitas conhecem as crenças, elas ouvem o sal estalando no fogo e percebem que estão sobrando, e resolvem ir embora.
Quanto ao pensamento, Helena percebe que, quanto menos as pessoas pensam, menos sofrem: “A gente faz tudo sem pensar, graças a Deus”. Ela, entretanto, se considera a pessoa que mais raciocina na família, e declara que desde os dez anos ela pensa, reflete e tira conclusões, o que não ocorre com os parentes de sua mãe, que não refletem sobre as coisas e acabam acreditando em tudo o que lhes é dito: “São todos felizes assim!”.
Apesar de tanto pragmatismo, Helena também tem seus momentos de devaneios. “Fazer castelos” é para ela um exercício de irrealidade que provoca prazer, mas não tem nenhum efeito prático sobre sua rotina; eles se bastam por si mesmos: “Adoro fazer castelos e cada dia faço um mais lindo… Os que tenho feito ultimamente são tão bons, que até gosto de perder o sono só para pensar neles. Não me importo de realizá-los e não penso mesmo nisso. Fazê-los me basta”.
O pensamento lógico de Helena está relacionado a sua visão pragmática do mundo, o que acentua sua postura questionadora. Um exemplo é a vida de sofrimentos, que engrandece e glorifica, a qual a tradição judaico-cristã prescreve para os homens, mas a lógica da menina não quer aceitar essa situação: “Mas eu é que não serei tola de fazer de uma vida tão boa uma vida de sofrimentos”.
A lógica questionadora também funciona para os “conselhos médicos” que a tradição perpetuou. A mãe a proíbe de entrar na água após o almoço, porque faz mal. O mal é meio misterioso, pois ninguém sabe explicar em que ele consiste. Por que então o mal não ocorre com os mineiros, que ficam dentro d’água o dia inteiro procurando diamantes? A resposta é que eles estão acostumados; por outro lado, ninguém deixa os jovens acostumarem também. Conclusão: os adultos não têm lógica, apenas repetem coisas que lhes falam e as aceitam como verdade inquestionável, o que não combina com o espírito investigador de Helena.
O caso do menino que ficou cego por desleixo do pai ilustra como as explicações pouco convincentes para o sofrimento, relacionados à vontade de Deus, são também objeto de questionamento. Helena se sente infeliz com a condição do menino, e é consolada pela mãe: “Não sofra assim, minha filha, Deus sabe o que faz. Quem sabe se Deus não quer fazer desse menino um santo para Sua glória? Deus nunca erra, minha filha! Ele sempre sabe o que faz!”. Apesar de se sentir um pouco confortada com as palavras da mãe, a lógica da menina não permite que essa fala seja definitiva: “Estas palavras aliviaram-me um pouco, apesar de eu não compreender para que Deus queria santo cego. Podia tanto deixá-lo com vista e fazê-lo santo enxergando”.

O UNIVERSO SOCIAL DE HELENA

Diamantina, cidade situada a 280 km. ao norte de Belo Horizonte, a 1.262 m. de altitude, teve seu esplendor como região produtora de diamante no século XVIII. Ao final do século XIX, período em que teriam sido feitas as anotações de Helena Morley, a cidade já via escassear a preciosa pedra que lhe fizera a riqueza passada (e, naturalmente, a da corte portuguesa), e começava a presenciar uma nova relação entre as classes sociais, com a escravidão recém-abolida. A transição do quadro econômico-social completa-se com a mudança política, com o advento da república.
O universo social de Helena Morley não se restringe à família e aos parentes. Ela compõe um quadro reflexivo de toda a sociedade de seu tempo, que inclui a convivência com ricos, pobres, escravos, crianças e bichos.
A avó, dona Teodora, é para a menina a melhor pessoa do mundo, em contraste com os filhos (seus tios e tias), que são invejosos e egoístas. Não por acaso, ela é a netinha preferida de dona Teodora, que a adula sempre. Há um certo incômodo da menina com a preferência da avó por ela, porque a repercussão entre os primos e tias não é muito boa. Dos tios da família da mãe, apenas tia Agostinha, além da avó, gosta de Helena. O pai da menina é uma pessoa correta, calma, ponderada, e é visto às vezes pela esposa como tolo, com o que a avó não concorda: “Não é bobo não. Seu pai é muito bom e bem-educado. Ela é que é muito malcriada”. Ela, no caso, é Carolina, a mãe de Helena.
Tio Conrado e tia Aurélia são os parentes de posses, cheios de regras. Há uma compensação nas festas ou passeios que eles promovem: a abundância de coisas gostosas. No mais, há tanto patrulhamento que as diversões são as mais sem graça. As proibições são gerais: nada de subir em árvores, andar pelo rio, catar gabiroba. Os tios e os primos são tão educados que eles não conseguem nem pescar peixes ou capturar passarinhos. Helena tem uma explicação surpreendente para isso: “Eu penso que Deus castiga gente educada”. É a visão da menina de que Deus não pode concordar com tão mesquinho modo de vida. Assim é a festa de S. João no tio Conrado: não são permitidas, ou ocorrem sob severa fiscalização, brincadeiras típicas do evento, como soltar fogos, pular fogueira, assar cana ou batata-doce.

Os tios e os primos são tão educados que eles não conseguem nem pescar peixes ou capturar passarinhos. Helena tem uma explicação surpreendente para isso: “Eu penso que Deus castiga gente educada”.

Entretanto, ela surpreende mais uma vez dizendo-se invejosa (mas sem muita certeza) do fato de os primos terem que estudar após a festa, para desmentir o sentimento concluindo que se sua mãe fizesse o mesmo com ela, ela seria uma boa aluna. “Mas felizmente ela não se lembra disso”, completa a garota. Felizmente por não ter de estudar após a festa ou por não ser uma boa aluna? Talvez pelas duas coisas. Os primos são estudiosos e provocam admiração das pessoas, mas Helena não quer viver aprisionada como eles. O fato de cada família ser como é tem uma explicação lógica, que afasta a possibilidade indesejável de mudança: o tio é comerciante, pode olhar os filhos; o pai dela vive na lavra, por isso os filhos têm de ser necessariamente mais largados. Felizmente para ela.
O mesmo raciocínio se aplica à bondade das pessoas. Helena declara-se admiradora e invejosa das pessoas boas e santas, mas vai permanecer como é porque não pode deixar de ser o que é. A lógica da existência tem seu lado cômodo. Chininha é um exemplo de menina levada que voltou “santinha” do colégio, e ostentava sua santidade fingida para ser elogiada pelos adultos, o que incomodava Helena tremendamente. A hipocrisia da prima leva Helena a cometer uma infração. As infrações fazem parte da vida, mas podem ser justificadas e até perdoadas, como no caso do jejum forçado, que a menina não conseguiu manter. Ao final ela tem o apoio da avó, e assim triunfa sobre a prima. A própria avó relativiza o efeito das infrações, e as considera até necessárias em alguns casos, para evitar piores malefícios, como quando escondia as coisas do marido para evitar-lhe aborrecimentos.
Em alguns momentos as infrações adquirem um verniz perverso, como aconteceu no aniversário de Helena. Ela convenceu a irmã a gastar as economias para lhe proporcionar um jantar, que traria convidados e, conseqüentemente, presentes, que ao final seriam divididos. A divisão, obviamente, foi injusta para Luisinha, que reclamou frouxamente. A lógica prática de Helena, evidentemente, não permitiu que ela sofresse remorsos, alegando que ela precisava mais do que a irmã de vestidos, lenços, meias etc., porque ela saía muito e a irmã estava sempre em casa.
Tia Madge é representante da tradicional família inglesa, e sempre que pode ensina a sobrinha a se comportar com etiqueta. Helena gosta dela, apesar de sua formalidade, mas não vê muito sentido prático nos ensinamentos dela. Na lição de boas maneiras à mesa, por exemplo, a professora prescreve que, além de não palitar os dentes, não se pode empurrar o prato após a refeição. A pessoa educada deve ficar “agüentando o prato na frente até a criada tirar”. A avó fica exultante com as maravilhas que tia Madge ensina a Helena, e aconselha-a a praticar. Pela lógica da menina, vai ser um pouco difícil praticar isso, já que na casa dela não existe criada e ela é que faz o prato no fogão e o lava depois de comer. Etiqueta não é para qualquer um.
A menina mostra um certo determinismo ao avaliar seu próprio desenvolvimento: pouco pode ser mudado, por mais que tia Madge lhe empreste livros e cobre sua leitura, como A força de vontade e O caráter, de Samuel Smiles. Para ela, seu caráter, bondade, vontade ou o que seja não mudaram em nada com as leituras. Talvez apenas sua capacidade de economizar e guardar tenha aumentado, mas não necessariamente por causa dos livros.
Uma peculiaridade das mulheres da família Morley são os frouxos de riso. A intenção talvez não seja exatamente destilar o sarcasmo sobre as vítimas, mas rir da própria vida, ou do estranhamento que certas situações provocam, como no acontecido na casa de dona Mariquinha, que dizia ter uma sobrinha, ausente no momento, parecidíssima com a Luisinha, irmã de Helena. O fato franqueava a elas o pomar da residência: “Nós íamos aproveitando a parecença e comendo as frutas”. No dia do encontro das “sósias”, o grotesco da situação disparou nelas a máquina do riso, criando um constrangimento que terminou com a amizade entre as famílias. No affair Quitinha/Luisinha, o benefício da manutenção da amizade e do obséquio não justifica não rir, pois, afinal de contas, a fartura da natureza acaba contrabalançando as carências. O riso espanta também o hóspede estranho e calado, estraga a visita de pêsames, acentua a timidez do irmão Renato. Difícil é ficar sem rir, porque “riso comprimido deve fazer mal”. A única maneira de não rir, quando a situação não o permite, é pensar em coisas tristes, como a mãe de perna quebrada ou a irmã num caixão.

O PRAGMATISMO DA MENINA

Embora a família de Helena pareça ser feliz, é marcada, na visão da menina, pela falta de sorte ou incompetência nos negócios e atividades de sobrevivência, a começar pelo início da carreira de minerador do pai, em que ele perdeu uma sociedade com o cunhado por interferência da mulher, que recebeu um “sinal” de Santo Antônio. O santo se enganou e a lavra produziu grande quantidade de diamante, enriquecendo tio Geraldo.
Todos os negócios que a família inicia — com exceção da lavra de diamantes, que dá alguma coisa — fracassam: a venda administrada por seu Zeca, as quitandas de dona Carolina, as verduras da horta
Helena sabe que é vista pelos adultos em geral, principalmente os que não gostam de seu jeito atrevido, como uma menina “impaciente, rebelde, respondona, passeadeira, incapaz de obedecer”. Possui uma inteligência inquieta, mesmo os “inimigos” reconhecem sua vivacidade. Personalidade agitada, não entende a mania de sossego que os outros têm: “Eu acho engraçado na nossa família a mania de sossego que todos têm. Meu pai, vovó e todos só pedem a Deus sossego.”

Helena sabe que é vista pelos adultos em geral, principalmente os que não gostam de seu jeito atrevido, como uma menina “impaciente, rebelde, respondona, passeadeira, incapaz de obedecer”.

Helena demonstra ser uma pessoa de bons sentimentos em geral, mas se decepciona quando o que constata nas pessoas foge de sua expectativa. É o caso das irmãs Correias, de quem ela gostava, e a quem encontrou a enforcar um gato que havia furtado a carne. O mesmo ocorreu com a Isabelinha, que cobrava para ensinar a fazer flores e fazia de tudo para os alunos não aprenderem para não fazerem concorrência a ela. Ou a decepção por não ter recebido, na procissão, o cartucho de “manuscritos”(confeitos de cacau) das mãos de Seu Broa. As decepções a ensinam a ter paciência e a conviver com a falsidade das pessoas.
É interessante observar as inversões freqüentes que a autora faz das categorias normalmente conhecidas como bom e ruim, certo e errado, rico e pobre etc. Num dos episódios do livro, Helena fala dos comentários maldosos sobre sua conduta por ocasião da morte de uma tia paterna desconhecida e que morava longe. Helena vai a um baile e dança no dia da morte da tia. Para a sociedade, ela estava errada. Para ela, dançar é tão bom, e a tia já estava para morrer há tanto tempo, que não havia motivo para deixar de se divertir por causa de sua morte. Ao final, desfaz-se da culpa demonstrando a certeza de que as pessoas não vão se lembrar de seu procedimento durante muito tempo. Afinal, a tia podia ter morrido um dia depois, para que ela pudesse mostrar seu sentimento. Defunta inconveniente.
As inversões se processam em vários momentos. Na casa da avó, Helena diverte-se muito mais na cozinha junto com os negros e negras do que na sala da sociedade branca. Quanto a tia Madge, ela reconhece que a tia a adora, mas esse gostar não produz felicidade, o interesse da tia por ela é sincero, mas só a faz sofrer. Quando ela furta da gaveta da mãe um broche para vender e mandar fazer um vestido, ela chega a hesitar sobre sua culpa, mas conclui que o ato não configura furto, pois a idéia lhe foi sugerida pela própria Nossa Senhora. Onde a culpa então? Outra inversão é a inveja que diz sentir da pobreza de uma colega de escola, cuja mãe é lenheira e não tem pai, mas mora num lugar idílico, e tem uma vida de liberdade. Em contrapartida, não inveja nem um pouco os primos filhos de tia Aurélia, que, embora ricos, vivem numa prisão.
Tudo o que cerca a menina deve apresentar uma finalidade prática ou proporcionar prazer. É o caso da escola, que representa para ela inicialmente a possibilidade de fazer algum dinheiro e tirar o pai da lavra. Sua intenção era, após formada no curso Normal, “dar escola”, para ganhar dinheiro e melhorar a condição da família. Afinal, quando passa pela experiência de reger uma classe, entra em pânico e retira de sua cabeça qualquer possibilidade de voltar a dar aula. Era melhor continuar pobre para não ter que fazer semelhante sacrifício.
Em relação ao dinheiro, ela não é completamente alheia, mas não acalenta sonhos de riqueza, convivendo bem com o bordão de que “dinheiro não traz felicidade”, repetido pelo pai.
Morte e doença são dois elementos com os quais Helena convive e que não se afiguram muito trágicos para ela, apresentando-se às vezes até bem divertidos, como no caso da mãe que perdeu o filho e, mesmo conformada, insistia em gritar e chorar porque achava muito feio uma mãe não chorar a morte do filho. A doença também pode não estar muito longe da alegria de uma festa, como durante a caxumba de Renato, que faz a casa se encher de gente, tornando o ambiente alegre. Mesmo um caso macabro como a morte dos meninos, queimados pelo incêndio, que Renato pôs em cima da mesa, “torrados como torresmo”, para Helena ver, não é apresentado como algo terrível.
Uma lacuna que chama a atenção no diário de Helena é a da sexualidade. O período que o relato compreende coincide com a época de maior inquietação relacionada à sexualidade na vida de uma adolescente. Deve-se considerar também que o espírito investigativo e questionador de Helena não deixaria de registrar, em condições normais, suas inquietações de moça. Nesse período ela deve ter tido a experiência da menarca, deve ter convivido de alguma forma com o desejo, a masturbação, as confidências com as colegas. Entretanto, sua maior confidente e depositária de seus segredos, a folha de papel, nunca recebeu a menor menção de que o ser humano que se manifestava ali era um ser sexuado.
Há uma breve referência a sua condição feminina quando raciocina que em determinados momentos ser mulher apresenta algumas vantagens práticas sobre ser homem, como o fato de os irmãos terem que levar a besta para o pasto num dia particularmente frio enquanto ela permanece no quente de sua cama. A possibilidade de desenvolver algum tipo de relacionamento com um homem é prontamente rejeitada: “Eu vou dizendo a todas que não quero ter namorado, que não gosto de ninguém e que me deixem em paz”. O amor é regulado pela providência divina, e não deve constituir preocupação dos mortais: “Casamento e mortalha no céu se talha”.

“Meu pai entrou para a Companhia Boa Vista e tudo dos estrangeiros é só com ele, porque é o único que fala inglês e conhece bem as lavras. Agora não vamos sofrer mais faltas, graças a Deus.
Não é mesmo proteção de vovó lá do céu?”

O trabalho é um componente importante na vida de Helena e de sua família. A mãe e o pai transmitem aos filhos, e com bons exemplos pessoais, a necessidade do trabalho, evitando, por isso, ter criados, para que os filhos possam trabalhar. Helena e os irmãos não se queixam do trabalho; ao contrário, ela acha que a suprema infelicidade é uma pessoa não poder, ou não conseguir trabalhar. Trabalhar é ainda melhor do que estudar, no entender da menina.
Religião e reza são vistos pela menina como um componente importante da vida. Rezar pode não dar prazer, mas deixar de rezar provoca dor de consciência. Nas relações com as coisas de Deus, a lógica de Helena também prevalece. O pai, por exemplo, não gosta muito de rezar, mas a menina não vislumbra a possibilidade de ele ir para o inferno, porque senão quase toda a Diamantina teria que ir junto com ele, pois ele é melhor do que todos. “Eu sei que Deus é justo”, afirma ela.
A religião é um misto de beleza, mistério e terror. Deus manda um raio para matar um homem que debocha de sua divindade, o demônio em pessoa desce na igreja para carregar uma estudante que não confessou ao padre todos os pecados, o inferno ronda ostensivamente os pecadores. Por outro lado, os rituais religiosos aparentam grandeza e beleza na impressão da menina: a procissão, a festa do divino, a festa da Igreja do Rosário.
O final dos relatos é marcado pela morte da avó e de uma certa mudança na vida do pai. Dona Teodora havia deixado uma pequena herança, que propiciou ao pai de Helena saldar as dívidas. O pai consegue um emprego estável na Companhia Boa Vista e a vida melhora. A bondade da avó certamente é responsável pela mudança:
“Meu pai entrou para a Companhia Boa Vista e tudo dos estrangeiros é só com ele, porque é o único que fala inglês e conhece bem as lavras. Agora não vamos sofrer mais faltas, graças a Deus.
Não é mesmo proteção de vovó lá do céu?”

Ideias de Jeca Tatu

Jeca Tatu vivia no interior de São Paulo – mais precisamente no Vale do Paraíba – com a mulher e vários filhos. Era um homem muito pobre, moravam numa casinha de sapé, suas crianças eram tristes e pálidas, e sua esposa era muito feia e magra. A miséria da família era alarmante e deixava a todos boquiabertos. Não boquiabertos pela pobreza em si, mas pela atitude de Jeca para com a vida. O homem passava o dia de cócoras, desanimado e indisposto para realizar qualquer tarefa que fosse.

Perto de sua casa havia um ribeirão, no qual por vez ou outra ele ia pescar uns lambaris. Também poderia ir ao mato tirar palmitos, caçar, mas nada que lhe deixasse muito cansado: apenas o básico para sobreviver com sua família.
Preguiça sem fim

“Que grandíssimo preguiçoso!” murmuravam os vizinhos. O casebre de Jeca não possuía móveis, a família mal tinha roupas para se cobrir, e não encontrariam por lá nada que pudesse lembrar conforto ou comodidade. Algumas peneiras furadas, um banquinho com apenas três pernas, uma espingardinha ordinária e já teriam encontrado muito!

De tão preguiçoso e fraco, quando precisava buscar lenha, Jeca voltava com um feixinho tão fino e pequeno que até parecia ser uma piada. Para piorar a situação, o carregava arqueado, com dificuldade, como se fosse um peso enorme. Quando lhe perguntavam o motivo de não trazer uma lenha ou um feixe maior, o caboclo respondia que “não pagava a pena”. Para Jeca, nada pagava a pena, nada era importante. A única coisa que lhe era útil e “pagava a pena” era beber, sendo visto por todos como, além de preguiçoso, um bêbado.

Jeca possuía alguns poucos animais: um cãozinho, um porco e algumas galinhas. O cachorro era um companheiro fiel do caboclo, mas sofria de bernes que lhe causavam muito sofrimento, a qual Jeca jamais se preocupara em tirar-lhes dele. As pessoas torciam o nariz e o achavam insensível, mas ele simplesmente não se importava. Assim como seu porco, que nunca engordava porque não era alimentado, e as galinhas que, pelo mesmo motivo jamais punham ovos. Para Jeca, se os animais quisessem comer, que buscassem seus próprios interesses sozinhos.

O homem não via futuro na vida, não tinha empenhos, objetivos, sonhos ou qualquer situação que lhe entusiasmasse com a vida. As coisas passaram a mudar quando, num dia muito chuvoso, um doutor pediu para aguardar em sua casa até que a chuva terminasse. Ao notar a miséria da casa e a situação de Jeca – xucro e amarelado – pediu para examiná-lo. Constatou que Jeca não era apenas um homem preguiçoso, ele era doente.
Mudando de vida

As dores de cabeça, assim como a canseira infinita que o caboclo sentia eram, segundo o doutor, causadas por anquilostomiase. Tratava-se de uma doença provocada por vermes que penetravam na pele dos pés descalços de Jeca e alojavam-se em seu intestino. O doutor lhe orientou a comprar botas resistentes e tomar algumas medicações.

Mesmo descrente, Jeca seguiu as orientações do médico e os resultados foram surpreendentes. O homem simplesmente não conseguia mais parar de trabalhar. Possuía disposição para dar e vender, cortando e carregando lenha em quantidades cada vez maiores, cuidando de sua esposa, de seus filhos, de sua casa e de seus animais. A aparência de todos na casa melhorou, as galinhas agora botavam muitos ovos e os porcos haviam se multiplicado.

Preocupado com os vermes que lhe acometeram durante tanto tempo, ele mandou fazer botas rígidas para todos, inclusive para os porcos e galinhas. A população ficava impressionada de ver como o caboclo havia mudado, e como era agora um homem trabalhador e esforçado. Comprou caminhões, enriqueceu e faleceu de consciência tranquila após muitos anos de sua cura, com 89 anos de idade. Ele não teve estátuas ou reconhecimentos à nível nacional, mas tornou-se uma grande inspiração.

Ciço de Luzia

Romance revela a história de amor entre um herói sertanejo que se vê enamorado pela filha do patrão

Num tempo em que o amor anda em crise, eis que brota do universo matuto do monteirense Efigênio Moura, uma narrativa lúdica e subjetiva sobre o tema. O romance “Ciço de Luzia” revela a história de amor entre um herói sertanejo que se vê enamorado pela filha do patrão. Amor impossível? Que nada. O impossível se faz possível perante à simplicidade desses dois. Ciço e Luzia são peças de um romance que acontece numa terra de ventos quentes, num cenário de paisagem atraente, cujo protagonista é o Cariri, com seus costumes e peculiaridades.

Ciço de Luzia é a segunda publicação de Efigênio, que ingressou na cena literária em outubro de 2010 com o livro Eita Gota! Uma Viagem Paraibana. A primeira experiência como escritor foi concebida em 12 meses e resultou no esgotamento das três edições do livro publicadas no mesmo ano do lançamento. Diferente do primeiro, que apresenta de forma direta e bem humorada, a viagem de uma família paraibana pelos interiores do estado, o segundo livro mostra a profundidade nas sutilezas de um amor quase infantil.

A história de Ciço e de Luzia se passa nos anos 70, segundo o autor, “naquele tempo, amor era amor de verdade”. Os 36 contos que compõe o livro colocam o leitor numa posição de onipresença, transitando entre observador e personagem. De forma curta, a narrativa explora as sensações entre os personagens, o que enlaça o leitor numa trama repleta de jogos linguísticos, que prioriza a tradição oral do nordestino. Ao fim de cada capítulo, o leitor desacostumado poderá achar no glossário o significado das palavras do dialeto matuto.

Sobre a empolgação na hora de escrever, o autor expõe a necessidade de propagar nossa cultura para valorizar o que é da região. “O Nordeste ainda não foi descoberto; o Cariri nem se fala. Sou mais um a segurar a bandeira de Monteiro. Eu quero mostrar minha terra como de forma ela é”, ressalta Efigênio Moura, que com satisfação diz “eu escrevo matutês” e avisa que seu objetivo é lançar um livro por ano. Dois livros já se encontram em fase final. São eles: Santana do Congo, que será lançado no fim deste ano, e As Urnas do Cafundó, com previsão de lançamento para 2012.

Várias Histórias

Publicado em 1896, Várias Histórias é um exemplo perfeito da maestria com a qual Machado de Assis desenvolveu o conto, produzindo tesouros que estão entre os mais preciosos da Literatura Brasileira. Antes de mergulhar em suas narrativas, portanto, necessário se faz entender um pouco da técnica do autor em tal forma artística.

Machado de Assis notabilizou-se por dominar a análise psicológica, dissecando a alma humana em busca de sua essência, que muitas vezes é dilemática, ou seja, expressa o conflito e muitas vezes a conciliação entre elementos opostos. É muito comum em suas narrativas depararmo-nos com ações que, mesmo tendo uma determinada inspiração, revelam também o seu oposto, como no caso do usurário (pessoa extremamente apegada a bens materiais, a lucro e a dinheiro) de Entre Santos, que, em pleno desespero por causa da possibilidade da perda de sua esposa, faz uma promessa fervorosa que tanto revela seu amor à mulher quanto seu apego à noção de lucro, pois se perde em delírios diante da cifra de orações que se propõe a rezar.

Dessa forma, a complexa visão machadiana sobre o homem vai muito além do que os seus contemporâneos faziam. Reforça essa superioridade a intensidade que imprime ao caráter psicossocial, entendendo a personalidade humana como fruto de forças da sociedade, principalmente aquelas que valorizam o status, o prestígio social. É um elemento ricamente abordado em obras-primas como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro.

Assim, os contos de Várias Histórias constituem rico material para um estudo da psicologia do homem e de como ele se comporta no grupo em que vive. Vemos neles a análise das fraquezas humanas, norteadas muitas vezes pela preocupação com a opinião alheia. Em inúmeros casos as personagens fazem o mesmo que nós: mentem, usam máscaras, para não entrar em conflito com o meio em que estão e, portanto, conviver em sociedade. O pior é que levam tão a sério essa máscara que chegam até a enganar a si mesmas, acreditando nela como a personalidade real.

Por causa desses elementos temáticos, notamos uma peculiaridade nos contos machadianos. Esse gênero, graças à sua brevidade, dá, por tradição, forte atenção a elementos narrativos. Não há espaço, pois, para digressões, tudo tendo de ser rápido e econômico. No entanto, no grande autor em questão o mais importante é o psicológico, o que permite caminho para características marcantes do escritor, como intertextualidade, metalinguagem e até a digressão, entre tantas, tornando a leitura muito mais saborosa.

Contos

1. A Cartomante – Visão objetiva e pessimista da vida, do mundo e das pessoas (abolição do final feliz). Leia mais…

2. Entre Santos – Trata-se de uma narrativa dentro de narrativa, que em determinado momento dá caminho para mais outra. Um discreto narrador em terceira pessoa abre, já no primeiro parágrafo, espaço para um narrador em primeira pessoa, testemunha de um acontecimento surpreendente. Leia mais…

3. Uns Braços – Conto tocante que narra a descoberta do amor e de toda a sensualidade que cerca o descortinar desse mundo novo. Leia mais…

4. Um Homem Célebre – Tipicamente machadiano, Um Homem Célebre, conto publicado, primeiramente, no periódico “A Estação”, em 1883, e, posteriormente, em 1896, no livro Várias Histórias, aborda o tema da incompatibilidade entre os ideais e a realidade, constituindo, uma quase parábola, a parábola da existência humana. Leia mais…

5. A Desejada das Gentes – Conto em que o protagonista rememora a um interlocutor a história de Otília, cobiçada dama da sociedade que costumava desenganar todos que tentavam estabelecer uma relação com ela. O narrador lembra que chegou a fazer uma aposta com seu grande amigo, sócio de uma banca de advocacia, para ver quem angariaria o coração da mulher.

A primeira conseqüência é o final da amizade tão forte e o auto-exílio do companheiro em um grotão do país, onde acabara morrendo cedo. A outra conseqüência é o narrador perder o controle de seus sentimentos. No entanto, apesar da maneira diferente com que o tratava, destacando-o dos demais pretendentes, deseja deste apenas amizade. Houve um momento em que o quadro parecia ter mudado. Primeiro, o narrador havia ficado abatido com a morte de seu pai. Otília conforta-o, o que os aproxima. Pouco depois, era o tio dela, praticamente um tutor, quem falece. Com a equivalência garantida pela dor, o apaixonado imagina ter caminho aberto para o casamento. Mas seu pedido é recusado. Some por alguns dias, um pouco por despeito, um pouco porque mergulhado em compromissos burocráticos referentes à morte do seu parente. Quando volta, encontra uma carta de Otília, instando que a amizade se reatasse. Promete, em troca, não se casar com ninguém. E tudo fica nesse pé, até que a dama adoece, definhando aos poucos. Dois dias antes de morrer, casa-se com o narrador. O único abraço que se dão foi durante o último suspiro dela, como se quisesse não o aspecto corporal da união, mas algo próximo do espiritual.

6. A Causa Secreta – Este é um dos contos mais fortes de Machado de Assis. Leia mais…

7. Trio em Lá Menor – Este é um conto alegórico que apresenta a história de Maria Regina, sofredora de um dilema, pois não consegue decidir-se entre dois homens, Miranda e Maciel. Este se apresenta como cheio de vivacidade, alegria, mas que logo se transforma em futilidade, pois está apegado a aspectos mundanos, como fofocas e moda. Aquele é mais velho e, portanto, mais sério e circunspeto. Não tem a vivacidade do primeiro, mas é uma companhia de mais conteúdo, que não enfastia.

É um conflito que lembra Esaú e Jacó. No final a heroína se perde nos sonhos, em que vê, como uma metáfora de sua situação, a encantadora imagem de uma estrela dupla que se aparenta com um único astro. Termina por ouvir uma voz fantástica que lhe diz: “É a tua pena, alma curiosa de perfeição; a tua pena é oscilar por toda a eternidade entre dois astros incompletos, ao som desta velha sonata do absoluto: lá, lá, lá…” Fica a tese de que a conciliação de opostos é impossível e a busca da perfeição, conciliadora dessas contradições, só faz mergulhar na angústia da indecisão.

8. Adão e Eva – Outro conto que apresenta o esquema de história dentro de história. Em meio à degustação de doces, começa a discussão sobre quem é mais curioso: o homem ou a mulher? Um dos convivas apresenta uma narrativa com um quê de enigmático e que vem de um livro apócrifo (livro que não é reconhecido pela Igreja e que, portanto, está fora da Bíblia) da Bíblia.

É um relato que inverte a história de Adão e Eva. Primeiro porque apresenta a criação do Universo como fruto da ação do Diabo – Deus é que ia consertando as falhas provocadas pela malignidade. Dentro desse aspecto está a criação do homem e da mulher. Na forma crua, estavam dominados por instintos ruins. O toque divino atribui-lhes alma, tornando-os sublimes, sendo levados para o Paraíso. Inconformado com a destruição de sua obra, mas impossibilitado de entrar no campo divino, convence sua criação dileta, a serpente, a tentar Adão e Eva a comerem o fruto proibido. De pronto o animal o atende, mas, por mais que insistisse, não obteve sucesso. Satisfeito com tal proeza de caráter, Deus conduz os dois para o caminho da glória.

Termina assim o relato que deixa incrédulos entre a platéia, a maioria achando que tudo não passava de brincadeira do seu narrador. No entanto, o comentário final de um dos convivas é bastante interessante: “Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa”. Além de o conto apresentar o oposto (mais uma vez a visão dilemática machadiana!) de uma questão, ou seja, uma outra história da criação, há uma idéia já desenvolvida, por exemplo, em Dom Casmurro: a graça de nossa existência está justamente na imperfeição em que se processa.

9. O Enfermeiro – O conto O Enfermeiro está, certamente, entre os melhores contos de Machado de Assis. Leia mais…

10. O Diplomático – Outro conto que trata das fraquezas humanas. Trata-se da história de Rangel, homem de sonhos gigantescos e ações minúsculas, quase nulas. Tanto que alcança a meia idade sem ter casado, pois sempre procurava uma mulher de posição.

É mais uma personagem machadiana, pois, preocupada com status, prestígio social, não enxergando o prejuízo que tal comportamento trazia para si mesma. Até que flagramo-la em um encontro de amigos. Tentará seu último golpe, considerado pelo narrador um amor de outono, dessa vez sobre a jovem Joana. Mas, típico de seu comportamento, vacila muito entre a idéia e a ação. Até que surge um furacão em meio à festa: Queirós. Chega de forma repentina e da mesma maneira consegue a atenção e o carisma de todos os presentes, menos do protagonista, que sente um misto de ciúme e inveja, piorado quando seu alvo afetivo, Joana, torna-se mais uma das conquistas do novo conviva. Derrota fragorosa, que fica clara quando o protagonista mergulha no choro no instante em que está sozinho, de volta à sua casa. É o resultado da inércia inutilizando toda uma vida.

11. Mariana – É um conto de lição cruel, mas realista, ao narrar as mudanças por que passou uma paixão no espaço de 18 anos.

Evaristo e Mariana mantiveram uma relação tórrida e descabelada, entrando em crise no momento em que, por pressões, ela estava para se casar com Xavier. Diante do amante, nosso protagonista, jura que a união “oficial” não ia diminuir a intensidade do enlace que, clandestinamente, estabeleciam. Pouco depois, por meio de flashback, sabemos que Mariana havia tentado suicídio, provavelmente em nome do sentimento que tinha por Evaristo, conflitante com a união que iria contrair. Este é impedido de vê-la. Parte, então, para a Europa num quase auto-exílio, desligando-se quase que por completo das coisas do Brasil.

Sem grande explicação, 18 anos depois sente necessidade de voltar à pátria. Ao chegar, visita Mariana, encontrando-a mergulhada na dor de ter o marido, Xavier, doente terminal. É o que o impede de um contato mais aprofundado. Com a morte do moribundo, fica sabendo por meio de várias pessoas da intensidade do amor que havia entre o casal, o que já tinha sido indicado pela dor dela quando do último suspiro do esposo. Pouco depois, flagra-a voltando da igreja e percebe que ela fez de conta que não o havia visto.

Uma paixão tão fulminante fora esmagada pelo tempo, pois terminava de forma tão fria, ela evitando-o, ele encarando o fato num misto de indiferença e chiste.

12. Conto de Escola – Conto que segue a tradição do estilo delicioso com que Machado de Assis se apresenta como memorialista. Leia mais…

13. Um Apólogo – Famoso conto que narra o desentendimento entre a agulha e a linha.

A primeira vangloriava-se por ser responsável pela abertura do caminho para a segunda. Tudo isso ocorre enquanto a costureira ia preparando o vestido de uma baronesa.

No final, com a ida da nobre para a festa, a linha joga na cara que, se a agulha abrira caminho, agora iria voltar para a caixa de costura, enquanto o fio iria no vestido freqüentar os salões da alta sociedade.

A frase final do conto, de alguém que ouvira essa história (um professor de melancolia) – “Também tenho servido de agulha a muita linha ordinária” –, é bastante sintomática. Faz lembrar um aspecto muito comum na obra machadiana que é, na busca por status, as pessoas acabarem sendo usadas e depois descartadas.

É o que ocorre, por exemplo, em Quincas Borba, na relação entre o casal Palha e Rubião. Ou mesmo em Memórias Póstumas de Brás Cubas, na conveniência do casamento entre Eulália Damasceno de Brito (linha) e Brás Cubas (agulha).

14. D. Paula – Percebe-se neste relato um tema que já fora desenvolvido em O Enfermeiro e outros contos: a desconexão entre o externo e o interno, pois se dizia e pregava o moralismo, no seu íntimo desejava, ou pelo menos deliciava-se com algo imoral. Leia mais…

15. Viver! – Conto de temática alegórica e grandiosa. Além disso, sua estrutura aproxima-o por demais do teatro. Trata-se do diálogo entre Ahasverus e Prometeu.

A primeira personagem recebera a maldição de, por menosprezar Cristo em seu calvário, vagar pelo mundo sem encontrar abrigo e ser desprezada até que o último homem desaparecesse. Sua longevidade, portanto, deu-lhe uma experiência massacrante sobre o gênero humano.

A segunda personagem pertence à mitologia clássica e havia criado o homem, sendo, portanto, condenada pelos deuses a ter uma águia comendo seu fígado por toda a eternidade. Diante dessa revelação, Ahasverus fica indignado e faz com que Prometeu volte para o seu castigo, de onde havia escapado.  No entanto, a entidade mitológica declara que faria de Ahasverus o início de uma nova espécie, mais forte do que a anterior, que estava findando na figura do rejeitado, que agora se tornaria o rei dessa nova raça. Diante desse futuro grandioso, Ahasverus mergulha em devaneios, feliz com sua nova condição, esquecendo até o fato de estar morrendo para realizá-la. Como observam duas águias que voavam por ali, ainda na morte mostra um enorme apego à vida.

16. O Cônego ou Metafísica do Estilo – Conto metalingüístico que em alguns aspectos antecipa as sondagens introspectivas e intimistas da prosa modernista.

É a história de um cônego que se dedicava à escritura de um sermão. Tem sua tarefa interrompida porque não conseguia achar um adjetivo que se ligasse adequadamente ao substantivo que havia colocado em seu texto. Esforçava-se, mas a palavra não vem.

Enquanto o protagonista espairece, para descansar a mente e buscar inspiração, o narrador mergulha no cérebro da personagem, defendendo a idéia de que as palavras têm sexo. Assim, o substantivo, masculino, que é nomeado como Sílvio, está procurando um adjetivo, feminino, designado Sílvia. É interessante nesse ponto como todo o universo de elementos que povoam nossa mente – sonhos, impressões, sensações, lembranças – é bem metaforizado ao ser apresentado como os obstáculos que o casal tem de suplantar até que finalmente consiga efetuar o seu encontro. Concretizada a união, o estalo mental surge para o cônego. Finalmente conseguia dar prosseguimento a redação de seu sermão, terminando-o.

Últimos Cantos

A obra “Primeiros Cantos” foi recebida com entusiasmo pela crítica e fez grande sucesso junto ao público ledor de poesia. Alexandre Herculano renomado e recatado escritor romântico de Portugal e o imperador D. Pedro II registram rasgados elogios ao livro e tecem palavras de simpatia e incentivo ao poeta maranhense.

“Os primeiros cantos são um belo livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Santa Cruz, que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um ilustre filho. O autor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos do escritos ainda pouco amestrado pela experiência: imperfeições de língua, de metrificação, de estilo. Que importa? O tempo apagará essas máculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas páginas deste formoso livro.”

Como se vê no “Prólogo aos Primeiros Cantos”, o próprio Gonçalves Dias, traça o perfil da sua poesia, que é bem a concepção romântica de poetar, na qual se destaca a liberdade formal, a imaginação criadora e valorização do indivíduo, de suas contradições e das emoções particulares e circunstanciais.

“Dei o nome de Primeiros Cantos às poesias que agora publico, porque espero que não serão as últimas.
Muitas delas não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezo regras de mera convenção; adotei todos os ritmos da metrificação portuguesa, e usei deles como me pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.
Não têm unidade de pensamento entre si, porque foram compostas em épocas diversas – debaixo de céu diverso – e sob a influência de expressões momentâneas. Foram compostas nas margens viçosas do Mondego e nos píncaros enegrecidos do Gerez – no Doiro e no Tejo – sobre as vagas do Atlântico, e nas florestas virgens da América (…)
Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena política para ler em minha alma, reduzindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as ideias que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano – aspecto enfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento – o coração com o entendimento – a ideia com a paixão – colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia – a Poesia grande e santa – a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.
O esforço – ainda vão – para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Público o julgará; tanto melhor se ele o despreza, porque o Autor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.”

Sermão de Santo Antônio aos Peixes

O sermão foi proferido em São Luís do Maranhão em 13 de junho de 1654, dia de Santo Antônio e três dias antes da partida de Vieira para Portugal, onde pretendia interceder em favor dos índios diante das autoridades portuguesas. O sermão é construído em forma de alegoria, dirige-se aos peixes mas, na verdade, fala aos homens.

O texto está dividido em seis partes. A primeira delas é o exórdio, ou introdução, na qual faz o chamamento “Vós sois o sal da terra”. Os pregadores são o sal da terra, cabendo ao sal impedir a corrupção. Mas na terra não lhes dão ouvidos, por isso voltam-se para o mar, onde estão os peixes. Há também a invocação da Virgem Maria.

Nas partes II a V temos o desenvolvimento do sermão. Antônio Vieira exalta as qualidades dos peixes, como a obediência, e repreende os vícios, como a soberba e o oportunismo. Deve-se destacar aí a citação de diversos tipos de peixes. As virtudes são descritas nos peixes de Tobias, Rémora, Torpedo e Quatro-Olhos. Já os defeitos estão nos seguintes peixes: Roncadores, Pegadores, Voadores e no Polvo. O principal defeito apontado é a voracidade, já que os peixes devoram uns aos outros, e, pior ainda, os maiores devoram os menores.

A última parte é a peroração, ou conclusão, na qual Vieira exalta os peixes que, por sua natureza, não podem ser sacrificados vivos a Deus e sacrificam-se então, em respeito e reverência. Confessando-se pecador, o orador se despede com uma oração de louvor a Deus.

Contexto

Sobre o autor
Antônio Vieira é o maior representante da prosa barroca no Brasil e o maior orador sacro do Brasil-Colônia. Nascido em Portugal, veio para o Brasil ainda criança e estudou no Colégio dos Jesuítas, em Salvador.

Importância do livro
Os sermões do Padre Vieira são o melhor exemplo do Barroco Conceptista no Brasil. São textos que usam a retórica, com jogos de ideias e palavras, para convencer os leitores (no caso, os assistentes) pelo raciocínio, mais que pela emoção. No Sermão de Santo Antônio aos Peixes, além de exaltar a necessidade da pregação, Vieira usa a alegoria dos peixes para criticar a exploração do homem pelo homem e, mais especificamente, para condenar a escravidão indígena.

Período histórico
Na época em que o sermão foi escrito, 1654, Padre Antônio Vieira lutava contra a escravidão indígena e contra a exploração portuguesa. Logo depois do sermão, o Padre foi para Portugal interceder pelos índios.
Análise

Os sermões de Vieira são textos que chamam a atenção tanto pela forma quanto pelo conteúdo. Nascido em Portugal, mas criado no Brasil desde os seis anos de idade, Vieira experimentou a efervescência política do Brasil-Colônia e da corte portuguesa. Seu estilo literário é essencialmente barroco: longos períodos construídos com o uso intensivo de figuras de linguagem, como metáforas e antíteses, formando um discurso altamente persuasivo, com o intuito de convencer o ouvinte pelo raciocínio e pela razão.

No Sermão de Santo Antônio aos Peixes, Vieira junta sua devoção ao santo à preocupação que o levaria, dias depois da pregação, a fugir secretamente para Portugal: a questão da escravidão e dos maus tratos contra os indígenas. A alegoria e a ironia são a chave de um discurso argumentativo que quer levar o ouvinte à reflexão. Ao mesmo tempo, a saudação inicial “Vós sois o sal da terra” é um chamamento à participação ativa na sociedade.

A discussão sobre as virtudes e os vícios humanos passa necessariamente por uma preocupação social. A ideia de que peixes maiores comem os peixes menores, ou seja, que a grandeza de cada um na sociedade tem valor relativo, surge espantosamente à frente do seu tempo. Em plena era mercantil, o texto de Vieira, por meio da alegoria, desvenda para os colonos do Maranhão a realidade da competição proto-capitalista: são peixes grandes na colônia, pois escravizam os nativos, que consideram inferiores, porém, uma vez na metrópole, serviriam de alimento para outros peixes maiores, contra os quais não teriam defesa.

Portanto, o texto de Vieira, datado do século XVII, traz para nós uma inquietante contemporaneidade, pois seus temas principais são a ganância humana e a corrupção da sociedade, assuntos mais do que presentes em nosso cotidiano. Por meio de sua linguagem finamente elaborada, Vieira nos faz refletir sobre os desafios da sociedade de seu tempo, nos ajudando também a pensar sobre a nossa realidade.

Os dous ou o inglês maquinista

Os dous ou o inglês maquinista, peça teatral (comédia de um ato) de Martins pena, datada de 1845, e reúne em um espaço único, uma sala da casa de uma família rica, as duas pontas extremas da sociedade brasileira: o senhor e o escravo. Martins Pena não teria escrito esta peça se não existisse então no Brasil o problema dos meias-caras, isto é, dos africanos introduzidos ilegalmente no país pelos barcos dos traficantes, que conseguiam furar o cerco dos navios de guerra ingleses, que policiavam as rotas marítimas do sul do Atlântico. Na peça ele explora a rivalidade existente entre os ingleses e os que se beneficiavam com o trabalho de escravos. O problema era velho vinha de onze anos, quando foi composta a comédia.

Essa comédia adquire uma perspectiva globalizante e crítica que vai além dos simples costumes e dos indivíduos, e atinge a própria forma de organização da sociedade e, inlcusive, o Estado imperial. Adquire uma dimensão política, no sentido de levar o espectador a refletir também sobre as regras do seu mundo social e as formas de suas relações com o Estado.

O inglês Gainer, personagem da obra, logo de saída se revela um refinado finório, buscando conseguir do governo imperial privilégios para a realização de empreendimentos mirabolantes: produzir açúcar a partir de ossos e construir uma máquina de beneficiar bovinos. Procura ainda, ao mesmo tempo, obter da família que o recepciona, a mão de Mariquinha, a brasileira virtuosa, ocultando suas verdadeiras intenções a respeito da jovem. É Felício, o rapaz brasileiro bom caráter e de fato sinceramente apaixonado pela moça, que percebe seu intento de, desposando-a, apossar-se do dote da família.

Os propósitos nada nobres do estrangeiro, e sua pouca consideração pelos brasileiros, são também expressos de modo direto, por ele próprio. Como quando confessa, no seu português estropiado que acaba por acentuar seu alheamento em relação ao universo brasileiro – e que o torna ridículo aos olhos dos espectadores e leitores –, que “Destes tolas eu quero muito”.

O texto opera com base em uma partição simples, maniqueísta: de um lado estão os interesseiros, figurando aqui, junto a Gainer, Negreiros, um traficante de escravos também de olho no dote da menina. Do outro encontra-se Felício, cuja atuação vai no sentido de evitar o êxito dos primeiros. Conseguindo, ao final, o intento perseguido, sua intervenção lhe garante a mão de Mariquinha, que funciona como uma espécie de recompensa a sua fidelidade aos valores puros e castos, embora ingênuos, que organizaria a boa sociedade brasileira. Do ponto de vista do público, cuja cumplicidade é alimentada ao longo de toda a peça, fica desta forma preservado o resguardo das virtudes nacionais, encarnadas pelo jovem herói.

Entre suas 11 personagens, destacam-se, como já citado, Gainer, o comerciante inglês, e Negreiro, um traficante de escravos, ambos rivalizando pela mão da filha de uma rica viúva, este último dá margem a apresentar um painel desse comércio iníquo:

FELÍCIO – Sr. Negreiro, a quem pertence o brigue Veloz Espadarte, aprisionado ontem junto quase à fortaleza de Santa Cruz pelo cruzeiro inglês, por ter a seu bordo trezentos africanos?
NEGREIRO – A um pobre diabo que está quase maluco… Mas é bem feito, para não ser tolo. Quem é que neste tempo manda entrar pela barra um navio com semelhante carregação? Só um pedaço de asno. Há por aí além uma costa tão longa e algumas autoridades tão condescendentes!…

Se olharmos a produção de Martins Pena como um todo, percebe-se que a comédia que marca o ponto de inflexão da obra é Os dous ou O inglês maquinista, que esboça em vários momentos uma comédia de meios tons, refinada, que poderia ser um caminho desenvolvido por Martins Pena, se assim o desejasse. Observe-se a leveza do diálogo na cena 10, que funciona pelo que não diz, e que é absolutamente impensável no teatro da época:

Mariquinha — … Primo?
Felício — Priminha?
Mariquinha — Aquilo?
Felício — Vai bem.
Cecília — O que é?
Mariquinha — Uma cousa.

Lavoura Arcaica

Lavoura Arcaica, obra de Raduan Nassar, traz uma narrativa pesada, cheia de confusões; protestos; abstenções; amor de irmão com irmã deixando a narrativa ostensiva e cansativa. André se vê diferente de todos que cheio de pressões resolve fugir de casa, fato que remonta bem à narrativa bíblica do filho pródigo.

É um texto onde se entrelaçam o novelesco e o lírico, através de um narrador em primeira pessoa. André, o filho encarregado de revelar o avesso de sua própria imagem e, conseqüentemente, o avesso da imagem da família. Lavoura Arcaica é sobretudo uma aventura com a linguagem.

ARGUMENTO

André, o protagonista, é um jovem do meio rural arcaico que resolve abandonar sua numerosa família do interior para ir morar em uma pequena cidade (ainda no interior), fugindo, em parte, daquele mundo asfixiante da lavoura, onde o passar do tempo parecia consumir as gerações, onde a rigidez moral mantinha as estruturas sociais análogas às da Idade Média, um mundo em que a loucura das paixões primitivas consumia sua alma, como, por exemplo o relacionamento amoroso e incestuoso (fantasioso ou carnal) com sua irmã Ana.

Com sua fuga, André põe a perder o precário equilíbrio da família – baseada em uma estrutura patriarcal clássica e impregnada por um forte caráter religioso e bíblico. O pai, então, determina que o filho mais velho, Pedro, vá em busca do filho pródigo na cidade. Pedro encontra o irmão em um quarto de pensão marcado pela sordidez e, após inúmeros apelos, consegue convencê-lo a retornar ao lar. Este retorno explicitará ainda mais os aspectos doentios e perturbadores do relacionamento entre os membros da família, com destaque para outros dois personagens: o caçula, Lula, que também pretende, a exemplo de André, abandonar a fazenda em busca de um mundo que promete possibilidades infinitas (o drama do êxodo rural), e a figura cigana, sensual e mediterrânea da irmã Ana, personagem que posteriormente será o pivô da ruína final do clã.

A volta de André ao lar traz uma aparente (porém precária) paz ao ambiente já inviabilizado. A palavra do pai, oriunda da tradição dos Dez Mandamentos, das parábolas bíblicas, dos profetas e dos grandes pregadores cristãos, torna-se ineficaz, configurando a simbólica “lavoura arcaica”, e o resultado não poderia ser outro senão a tragédia: o pai mata a filha Ana, ao perceber que ela ama André, e depois, de modo não explícito no livro, também acaba por perder a vida.

O núcleo familiar em que se desencadeia a trama de Lavoura Arcaica é de imigrantes árabes do Líbano para o Brasil. O livro é dividido em duas partes: a primeira “A partida”; e a segunda “O retorno”. Esta divisão corresponde à temática e inversão que Nassar faz da história bíblica do filho que deixa a casa e retorna, a parábola do filho pródigo.

Como se verá mais adiante, Raduan Nassar utiliza-se fartamente dos recursos poéticos para compor a fala do personagem narrador, André. Contudo, a bela expressão lírica que André faz da sua inconformidade não muda o desenlace de suas ações. ‘Lavoura’ mostra a incongruência entre a beleza das palavra se o desastre das ações humanas levadas ao individualismo extremo.

A sua revolta nasce perante uma condição que ele considera absurda, em que a igualdade aparente de todos os membros da família oculta as grandes desigualdades entre eles e a opressão do discurso da tradição (encarnado pelas palavras do pai, Iohána). André nega o homem, a moral e Deus, não exatamente a existência deste último, mas sim o seu poder de transcendência, em nome do instinto sexual, no qual o impulso decreta a posse integral dos seres a troco da sua destruição.

Este conflito entre indivíduo, leis e sociedade compõe os conflitos do próprio personagem narrador. ‘Lavoura’ fala do problema da integração entre o indivíduo e a sociedade, em que a particularidade das vontades e das dores de André não consegue coexistir com o mundo em que ele vive.

O personagem busca a integração, o seu lugar na mesa da família, justamente por meio do que a destruiria, o amor incestuoso entre ele e Ana, sua irmã.

Às ambigüidades das palavras de André confrontadas com suas atitudes somam-se às ambigüidades do tempo construídas na narrativa. Neste confronto pode-se explorar no texto o trabalho que Raduan Nassar realiza entre o que se pode chamar de aventura romântica e destino trágico no ‘Lavoura’. A aventura romântica é o conflito apresentado pelas palavras entre a busca pela experiência e a vivência do acaso, o ímpeto de sair a campo e transformar sua história e seu entendimento do mundo. O destino trágico é a vivência de uma história prefigurada, escrita antes mesmo da personagem tomar ciência dela, em que o destino impera sobre a vontade. Assim, na aventura romântica, o tempo é o tempo que se abre aos acasos e ações humanas. E no destino trágico, o tempo trava seus ponteiros, deixando de existir, acontecendo à parte da história; ou confunde-se com o tempo mítico (da tradição milenar da costa pobre do Mediterrâneo), que é aquele em que o destino retorna, num tempo cíclico.

Quando André resolve conduzir a sua história, o seu tempo é o da aventura; mas quando o mundo lhe diz não, o tempo se torna aquele já marcado pelo destino das coisas, que retorna como uma maldição, num ciclo repetitivo. O tempo do destino e da aventura é um tempo constituído pela palavra. A busca de André é compor tempo e palavra “como gêmeos com as mesmas costas”, pela narrativa. Esta busca tenta fundir palavra e coisa, sentido e sentimento, mas sabe do perigo que corre, sabe da impossibilidadede levar até o fim este projeto. A palavra, senhora do tempo, verbo oleoso, reúne a lucidez e o delírio de André. Esta palavra nasce no lodo, no charco, no lugar daqueles que não têm lugar. O tempo na palavra do narrador é o tempo que quer explodir, corroer o mundo que produziu o fosso onde o relegado sente-se jogado. Pois, para André, àqueles que não ganham do mundo o seu quinhão restam duas alternativas: dar as costas a tudo ou alimentar uma expectativa de destruição deste mundo. É o tempo na narrativa de Nassar que não se deixa capturar, parecendo indicar algo numa das partes do romance que em outras páginas se desfaz, apontando possibilidades de interpretação e sendo a principal mola para dissolvê-las.

O romance é constituído por vários tempos num mesmo tempo e também vários tempos que parecem não se conciliar, senão por um final destruidor. A falta de síntese entre os tempos, ou o tempo no ‘Lavoura’, fala sobretudo da condição do homem, em que o conflito das diferenças, a violência, a imposição de uma tradição e, o outro lado da moeda, o individualismo, põem em xeque a existência da própria humanidade, as suas instituições e a viabilidade da sua reprodução. Nassar semeia as palavras para compor o tempo da narrativa, que é múltiplo. A história e a temporalidade estão concentradas na própria narrativa de André, onde os dramas, conflitos e percepções humanas constituem a marca da própria linguagem. A busca pela escrita do tempo é uma atividade arcaica, uma lavoura arcaica, da qual os homens se ocupam há milênios.

LINGUAGEM

Narrado em primeira pessoa, Lavoura arcaica está longe de ser uma narrativa linear, embora a ordem dos fatos possa ser apreendida sem maior esforço. A grande dificuldade do livro (simultaneamente fonte de sua riqueza) é a linguagem. De uma riqueza só superada na moderna prosa brasileira por Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, Lavoura arcaica, no entanto, não pode ser considerado um romance de invenção ou de resgate léxico-sintático como é o do escritor mineiro. Muito antes pelo contrário. O estilo da prosa de Lavoura arcaica é dos mais elegantes e elevados, é patente o cuidado e a meticulosidade na escolha das palavras e na construção das frases. A inovação se dá no modo elíptico com que o narrador se expressa, nesse fluxo de consciência terrível e assustador, adquirindo assim extrema funcionalidade, permitindo que o narrador tenha um modo singular de revelar, por meio de meias-palavras, as grandes atrocidades que cometeu na sua Odisséia às avessas.

As sombras, paradoxalmente, realçam as feridas familiares, que no escuro acabam por se tornar ainda mais ofuscantes (basta lembrar da sutilíssima cena de incesto entre André e o irmão caçula, ou da morte do pai ao final do relato). Em Lavoura arcaica o não dito parece ser mais importante do que a narração dos fatos, contrariando a perspectiva clássica da ficção ocidental a partir do século XIX e principalmente a tendência real-naturalista, muito em voga na ficção brasileira desde a retomada promovida pela chamada geração do Romance de 30. No entanto, as relações do livro com sua época e com a crise da ficção nacional nos anos 1970 são evidentes.

O dramático em Lavoura arcaica

É inquestionável que romance e teatro têm pontos de contato entre si. Cada um, a sua maneira, narra uma história (enredo) de algumas pessoas (personagens) num certo tempo e espaço. Contudo, no romance, personagem, enredo e significado são indissociáveis. Pensar em um romance é pensar na fusão desses três elementos. No resultado da síntese entre os traços e ações das personagens, o enredo que estas desenrolam, o tempo e o espaço nos quais tudo isso acontece e, enfim, no significado que gera. Já no teatro, a personagem concentra toda a carga de expressividade do texto. Um romance pode falar através da descrição de paisagens, através do simples desenvolver de idéias, sem para isso pedir a presença de um personagem. Já é impossível no teatro algo ser contado fora dos limites de um sujeito/ ator. Enquanto o romance se constrói através da combinação de seus elementos, no teatro, todo foco fica na personagem.

E isso é o primeiro ponto merecedor de atenção em Lavoura arcaica. Todo o romance é contado pela voz de André. Isso não teria nada de especial se não levássemos em conta a carga de expressividade concentrada nas palavras de André. Não se trata de mais um caso de narrador personagem. Em Lavoura arcaica o valor à voz de André parece ir bem além. Os fatos não só se desenrolam a partir do contar do protagonista, como todo o texto, toda a ação do enredo parece se voltar para ele, assemelhando-se mais ao teatro que ao romance. André não é simplesmente o narrador da história, mas pivô de toda ela. Mais que narrar uma história, André traça um longo monólogo. Um monólogo em que ele, ao mesmo tempo, conta e questiona os acontecimentos. Não é uma visão de narrador que olha para a história na perspectiva do passado, mas de um ator que a vive, como se pode constatar no seguinte trecho do romance:

(…) eu, o filho torto, a ovelha negra que ninguém confessa, o vagabundo irremediável da família, mas que ama a nossa casa, e ama esta terra, e ama também o trabalho, ao contrário do que se pensa; foi um milagre, querida irmã, foi um milagre, eu te repito, e foi um milagre que não pode reverter (…) (NASSAR, 1989, p. 120)

Esses dois papéis, de narrador e de ator, ora se distinguem ora se misturam no romance. Há o André que relembra e o André que vive. Há o André que retoma o passado e o André que age no presente. Contudo os dois aparecem dentro do mesmo contexto. Quando relembra, André também atua e virce-versa.

Por exemplo, a conversa entre o protagonista e seu irmão Pedro pode ser classificada como muito mais teatral que romanesca. Ela tem a marca do presente, parece que está acontecendo exatamente no tempo em que está sendo escrita. Porém, nessa conversa, há interferências do André narrador. Nos trechos a seguir, fica evidente o caráter teatral desse diálogo:

Pedro, meu irmão, engorde os olhos nessa memória escusa, nesses mistérios roxos, na coleção mais lúdica desse escuro poço. (NASSAR, 1989, p. 73)

não faz mal a gente beber” eu berrei transfigurado, essa transfiguração que há muito devia ter-se dado em casa “eu sou um epilético” fui explodindo, convulsionando mais do que nunca pelo fluxo violento que me corria o sangue (…) (NASSAR, 1989, p. 41)

No primeiro trecho, há somente a presença do ator. Na seqüência do trecho no livro, há a total concentração no depoimento de André. Todo o desenrolar do texto se dá através daquilo que André diz naquele momento. Todo esclarecimento vem da palavra de André. Nele se fixa a expressividade do texto. É na intensidade de suas palavras que vai se imaginar suas expressões e as reações do seu irmão. Já na segunda passagem, temos ainda o mesmo diálogo entre Pedro e André, mas agora com a interferência do narrador.

A presença do teatro no texto nassariano, não se verifica pela total ausência do narrador, mas sim pela contundência que é dada ao discurso de André. Como já exemplificado, o narrador se faz presente em várias passagens, sendo usado, como é comum nos romances, para descrição de personagens e retomada de posições. Em contrapartida, as descrições mais esclarecedoras se fazem através do que as personagens dizem e da maneira como estas se comportam dentro da trama.

Os conflitos que são estabelecidos, os campos de força que vão sendo construídos através do discurso de cada personagem delimitam o espaço de cada um dentro do texto. Através dos diálogos é que se percebe que o pai e Pedro estão do lado oposto ao de André, enquanto Ana e a mãe parecem ter dois lados em conflito: um real e outro aparente. O lado aparente mantém a tradição familiar, a real rompe diretamente com ela.

Outra característica do teatro, presente em Lavoura arcaica, é a limitação de tempo. Na obra em questão, o desenrolar de fatos da infância, desembocam na adolescência e desfecham no André já adulto. Mas isso não toma um tempo grande no desenrolar do texto. Os fatos vão sendo contados entrecortados, de forma que todo o panorama do “como”, “quando” e “porque” se reduzem a poucas páginas.

No trecho a seguir, retirado de um dos diálogos entre André e o pai, fica bem clara a dramaticidade nas vozes de ambos:

– Não há proveito em atrapalhar nossas idéias, esqueça os teus caprichos, meu filho, não afaste o teu pai da discussão dos teus problemas.
– Não acredito na discussão dos meus problemas, não acredito mais em troca de pontos de vista, estou convencido, pai, de que uma planta nunca enxerga a outra. (NASSAR, 1989, p.162)

Analisando assim as características do teatro, percebe-se que o viés dramático marca intensa presença no romance nassariano. Esses elementos emprestam vigor e veracidade ao texto, colocando o leitor diante de personagens ricos de diversas facetas e, por isso, verdadeiramente humanos.

O poético em Lavoura arcaica

Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, o quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiros os objetos do corpo (…) (NASSAR, 1989, p. 9)

É desta maneira que Raduan Nassar inicia seu romance. Não com um diálogo, não com a descrição de um personagem, nem com nada que possa esclarecer a idéia que perpassará as páginas seguintes. Não há nada de enunciativo, nada que possa dar uma idéia do porvir. Raduan Nassar começa seu romance como um texto poético, uma poesia de André para o seu quarto e os limites que ele estabelece. Não seria necessário que nada viesse depois para explicá-la. O trecho já se completa por si só. Dispensa laços, renega qualquer fundamentação.

Todo o romance nassariano é marcado por passagens, frases e expressões recheadas de carga poética, repletas de metáforas e musicalidade. O texto de Raduan Nassar nega-se a se prestar unicamente a fazer um relato. O texto é material de criação em si mesmo.

É no uso da linguagem poética na construção da sua obra que Raduan Nassar coloca a poesia como o gênero essencialmente literário, o gênero que tira a linguagem do seu eixo norteador.

O discurso de André é, ao mesmo tempo, forma e conteúdo: narra o enredo do livro e constrói, através da linguagem, o caráter do texto e das suas personagens. Nas palavras de André, estão escondidos todos os enigmas do texto, e sua poeticidade o tira do campo das certezas, deixando que os significados voem, se multipliquem, se espalhem.

Renata Pimentel, em seu estudo acerca de Lavoura arcaica, chama bastante atenção para a presença do poético na obra de Raduan Nassar. Em meio à narração, ela percebe “doses concentradas de fazer poético”, efeito que ela chama de desautomatização da linguagem. É desautomatizando o texto, buscando maneiras novas de falar sobre o que todos já conhecem, que Raduan Nassar consegue causar estranhamento e deslumbramento no leitor. O autor tira o leitor do conforto do conhecido para jogá-lo diante de formas inesperadas que remetem a um mundo essencialmente real.

Raduan Nassar garimpa a língua em busca da palavra mais certa, da expressão mais pura, do conceito mais distante do comum. O texto se constrói através de metáforas, repetições e se desenlaça num compasso que mais encontra identidade no campo da poesia que no da prosa, como se observa na passagem a seguir, na qual se encontra os delírios poéticos de André:

(…) que essa mão respire como a minha, ó Deus, e eu em paga deste sopro voarei me deitando ternamente sobre o Teu corpo, e com meus dedos aplicados removerei o anzol de ouro que Te fisgou um dia a boca, limpando depois com rigor Teu rosto machucado, afastando com cuidado as teias de aranha que cobriram a luz antiga dos Teus olhos (…) (NASSAR, 1989, p. 104, 105)

Em Lavoura arcaica, não há a busca por uma organização rigorosamente lógica. O texto flui na corrente dos pensamentos e sentimentos das personagens. Isso se verifica na ausência de parágrafos e no uso diferenciado da pontuação. Só há pontos finais no final de cada capítulo. No mais, a pontuação do texto se faz, sobretudo, através das vírgulas. E em alguns trechos, como em “(…) branco branco o rosto branco(…)” (NASSAR, 1989, p. 98), o efeito do poético é tão forte que até essas são dispensadas.

A repetição é um dos elementos que caracterizam o fazer poético. Repetição não para retomar uma idéia, mas para criar uma nova e, além disso, gerar cadência e musicalidade no texto, como se vê presente nos trechos abaixo:

O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros (…) (NASSAR, 1989, p. 95)

(…) que paixão mais pressentida, que pestilências, que gritos! (NASSAR, 1989, p. 94)

(…) róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual (…) (NASSAR, 1989, p. 9)

Em Lavoura arcaica, Raduan Nassar repete sons, palavras e até uma passagem inteira. O trecho da festa está presente no início e no final do livro, sendo repetido quase integralmente. Mas cada um com uma função distinta: em primeiro, o trecho é o anúncio do romance entre Ana e André (p. 29 e 30); no final, ele é o enlace final do amor proibido (p. 186,187).

Assim: buscando o sentimento definitivo de cada expressão. Fazendo do seu texto não somente material de apreensão, também de degustação, Raduan Nassar inova escrevendo o que se hoje denomina na moderna literatura de prosa poética, mistura de forma e conteúdo, concreto e sublime.

PERSONAGENS

André: filho de fazendeiro que, ao apaixonar pela irmã foge de casa.

Ana: irmã apaixonada pelo irmão André.

Mãe de André: sofre muito com a fuga do filho.

Pedro: irmão de André que foi buscá-lo no vilarejo onde morava num quarto de pensão.

Iohána: pai de André, morreu logo que percebeu o amor do filho pela irmã Ana.

Lula: irmão de André que também pretendia fugir.

Rosa, Zuleika, Huda – irmãs de André.

ENREDO

O enredo de Lavoura Arcaica revisita, em pequena medida, a história de Amon e Tamar, os incestuosos filhos de Davi, segundo Rei de Israel. Faminto de um tipo de amor que não viceja nos leitos meretriciais que assiduamente freqüenta, André, adolescente instável e presa de uma psique tumultuada, acaba encontrando em Ana, sua irmã mais nova, o combustível do seu desejo sexual e de suas afeições.

Se constitui numa trama dos costumes de uma família onde é mostrado a fuga de André, um adolescente que sempre fora criado na fazenda sob um duro modelo educativo passado por seu pai, o chefe do modelo familiar.

Tal fuga de casa pode ser entendida pelo grande amor que André sentia por Ana, sua própria irmã. Paixão esta que nunca poderia ser compreendida por seu pai. Assim, ele foge para um vilarejo.

A reação de Pedro, seu irmão mais velho, foi a de ir até a pensão onde ele estava e tentar trazê-lo de volta para sua casa na fazenda, onde sua mãe o esperava com ansiedade, sofria bastante com seu filho longe.

Ao achar André, Pedro começou a contar sobre os acontecimentos que estavam ocorrendo na fazenda sem ele. O irmão o recebeu contando lições sobre questões e preceitos da família como a história de um homem faminto que pediu comida. Demonstrou seus pensamentos, apesar de pouca idade acreditava que não valia a pena esperar em algum momento, em certas ocasiões era necessário agir, e logo. Contudo, nada disse sobre sua volta à fazenda.

Suas irmãs apenas rezavam para sua volta, cumpriam as ordens do pai e da mãe, e esta última apenas cumpria com suas funções de dona de casa.

André acaba voltando para casa, suas idéias não batiam com as dos pais que não entendiam a que se passava com o filho. E ele não aceitava a situação de amar a irmã e nada poder fazer. Porém desabafou ao pai que estava cansado, humilde, entendendo a solidão e a miséria, pedindo o seu perdão e amor.

Seu outro irmão, o Lula, acaba dizendo que também queria fugir de casa, que não agüenta mais aquela vida parada da fazenda.

No dia seguinte à chegada de André foi preparada uma festa por seu pai. E assim como iniciou a obra sua irmã Ana dança sensualmente para ele. Foi nesta festa que o pai percebeu o que realmente passava com os irmãos. Desesperado o pai sofre um ataque de tristeza e morre.

COMENTÁRIOS GERAIS

Lavoura arcaica possui a característica comum a toda grande obra de arte: a de nunca se esgotar. Há tantos signos há serem desvendados, tantos caminhos a serem percorridos que não se pode imaginar o dia em que um ponto final seja colocado nas questões que o livro abrange.

Já a partir de seu enredo, Lavoura arcaica começa a tumultuar: um jovem, André, sai de casa fugitivo do rigor do pai e da paixão por sua irmã, Ana. De volta para casa, ele trava uma longa conversa com seu irmão mais velho (uma espécie de sucessor do pai), permeada por uma série de conflitos que vão se desdobrar e refletir na própria estrutura do texto. Uma estrutura densa, capaz de adentrar as superfícies movediças de temáticas como religião, família, incesto, sem se deixar engolir pelo previsível. Raduan Nassar cria uma linguagem nova baseada em textos da Bíblia e do Alcorão, em que o poético se funde ao dramático para construção de um romance que pulsa no sentimento do novo.

Um estudo da obra nassariana intitulado Uma Lavoura de Insuspeitos Frutos, Renata Pimentel Teixeira chama atenção para o caráter desnorteador de Lavoura arcaica. Uma obra que pula a cerca das classificações e corre livre no campo do variado. À primeira vista poderia até ser chamada de romance, mas sua estrutura circular, sua linguagem poética e sua carga de dramaticidade vão além do que se espera desse, em sua formulação tradicional. O texto nassariano é, pois, uma obra de múltiplos gêneros. É romance por sua base mestra no encadeamento de episódios. É teatro por dirigir o vigor do texto para as personagens. É poesia por suas ricas metáforas, uso de aliterações, repetições e sinestesias.

Lavoura arcaica é a fala de André, sua ambigüidade é a de André, e da mesma forma sua indefinição é reflexo do não-enquadramento do André em um padrão. E como André está em todos da sua casa e ao mesmo tempo não está em nenhum, o texto nassariano não se fecha em um só gênero já que passeia por muitos.

A obras é sem dúvida um romance apaixonante tanto para os leitores leigos como para os especialistas em literatura. Oferece material de deleite tanto para um quanto para outro. Um texto que coloca o leitor diante da poesia e da intensidade escondida nos fatos mais corriqueiros da vida. Uma obra de todos os lugares que acaba por se fixar naquele que cada um particularmente busca. Que fala de tradição enquanto remete a um tempo imensurável e individual.

A obra mistura o hoje, o ontem e o sempre. Mistura repulsa e paixão. Mistura o perene à descoberta. Lavoura se desvencilha do pré-estabelecido como forma de se fazer pertencer. Sai da casa da tradição em busca do seu próprio caminho. É filha pródiga que escapa da vigilância do seu senhor, mas que logo volta ao lar, convicta de que nada poderá encontrar fora dos limites da história.